Trump dá 20 passos com Kim e reabre negociação nuclear

julho 1, 201911:53 am
Trump e Kim se cumprimentam na fronteira entre as Coreias Foto: KCNA / via Reuters

Durante décadas, os presidentes dos EUA que visitaram a Zona Desmilitarizada, dividindo a Península Coreana, seguiram o mesmo manual: usar binóculos para ver os guardas norte-coreanos, manter um olhar severo e advertir Pyongyang contra provocações. Donald Trump rompeu o precedente ontem, tornando-se o primeiro líder americano no cargo a pisar na Coreia do Norte. O terceiro encontro com o ditador Kim Jong-un representa a reabertura das negociações entre os países.

“Atravessar essa linha foi uma grande honra”, disse Trump, referindo-se aos 20 passos dados ao lado de Kim em território que formalmente ainda é inimigo. Ele elogiou o ditador norte-coreano e convidou-o para visitar a Casa Branca. O encontro durou pouco mais de uma hora.

Trump demonstrou irritação com comentários de que suas propostas para Kim não levaram a nenhuma medida significativa para acabar com o programa nuclear da Coreia do Norte. Em quase todas as vezes em que Trump apareceu diante das câmeras, incluindo o ponto de observação da DMZ, queixou-se de não ter recebido crédito suficiente por desarmar as tensões na Península Coreana.

“Houve um grande conflito aqui antes da nossa reunião em Cingapura”, disse Trump sobre seu primeiro encontro com Kim no ano passado. Ele repetidamente criticou Barack Obama, dizendo que o ex-presidente tinha buscado reuniões com Kim, mas fora rejeitado. A alegação é refutada pelo vice-conselheiro de segurança nacional de Obama, Ben Rhodes.

Segundo reportagem do New York Times, por trás do encontro aparentemente sem planejamento estaria uma ideia que tem ganhado força dentro da administração Trump de que Washington passaria a aceitar o status quo, ou seja, a Coreia do Norte como uma nação nuclear, em troca de não desenvolver novas armas. Segundo o jornal, esse conceito poderia ser a base para a nova fase de negociações entre Trump e Kim. Membros do governo republicano têm afirmado com frequência que isso seria algo inaceitável.

O maior sucesso da reunião na DMZ foi um acordo para retomar as conversas, que não deram em nada desde que Trump saiu de uma cúpula em fevereiro com Kim em Hanói. Aquele encontro fracassou depois de Trump rejeitar o pedido de Kim de ajuda humanitária em troca do desmantelamento apenas do principal complexo nuclear da Coreia do Norte em Yongbyon.

Embora a retomada das negociações seja uma conquista, um alto funcionário do governo americano disse que a Coreia do Norte ainda não articulou o que para ele representaria uma verdadeira “desnuclearização”.

Ceticismo

A próxima rodada de negociações “não terá nenhum resultado se a Coreia do Norte voltar com a mesma posição”, disse Chun Yung-Woo, ex-negociador-chefe nuclear da Coreia do Sul com a Coreia do Norte. A Coreia do Norte continuou a construir “sem tréguas” seu arsenal nuclear, afirmou. “No geral, foi mais espetáculo e percepção do que diplomacia a sério”, disse Chun. “Vou julgar o resultado com base em como a reunião se traduzirá no congelamento da produção de material físsil e na redução das capacidades nucleares da Coreia do Norte.”

Trump disse que as sanções continuariam contra a Coreia do Norte, embora ele tenha indicado que poderia amenizá-las em algum ponto. O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que participou de parte da conversa, tentou propor um caminho, sugerindo que Kim poderia obter alívio das sanções depois de “desmantelar completamente Yongbyon”.

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